O comércio desigual entre Brasil e Estados Unidos

O comércio desigual entre Brasil e Estados Unidos

Em 2025, a relação comercial entre Brasil e Estados Unidos voltou a ser abalada por uma nova rodada de tarifas impostas pelo então presidente Donald Trump. Em abril, o governo norte-americano anunciou uma tarifa adicional de 10% sobre todas as exportações brasileiras, medida que se somou a tarifas setoriais já existentes sobre aço, alumínio e automóveis. Poucos meses depois, em julho, Trump elevou ainda mais a tensão ao decretar uma tarifa de 50% sobre todas as importações vindas do Brasil, a partir de agosto, justificando a decisão por supostas práticas comerciais desleais e retaliações políticas ligadas ao cenário interno brasileiro.

A resposta brasileira foi imediata: setores do agronegócio, da indústria e o próprio governo manifestaram forte indignação e prometeram retaliar, inclusive com a aprovação de uma Lei de Reciprocidade Econômica no Senado. O governo brasileiro também destacou que os EUA mantêm, há anos, um expressivo superávit comercial em relação ao Brasil, contrariando o argumento de “desequilíbrio” usado para justificar os novos impostos.

Esses episódios recentes mostram que o chamado “tarifaço” não foi um ponto fora da curva, mas parte de uma dinâmica recorrente e estrutural de assimetrias comerciais entre os dois países. A lógica de reciprocidade defendida pelos EUA — de impor tarifas em resposta a barreiras percebidas em mercados parceiros — segue sendo aplicada, especialmente quando há interesses políticos em jogo ou pressões internas por proteção de setores industriais estratégicos.

Por trás das manchetes, o cenário revela a complexidade do comércio global e o desafio do Brasil em reposicionar sua política externa. Apesar do discurso de abertura e diversificação de mercados, o país ainda carrega um histórico de protecionismo e enfrenta dificuldades para negociar em pé de igualdade com grandes potências. A escalada tarifária de 2025 evidencia que as tensões comerciais entre Brasil e Estados Unidos são, na verdade, capítulos de um enredo antigo, marcado por interesses divergentes, disputas por espaço no mercado internacional e estratégias de barganha que vão muito além das cifras das exportações.

O Brasil figura consistentemente entre os países mais protecionistas do mundo. Segundo dados da Organização Mundial do Comércio (OMC) e do Banco Mundial, o país adota tarifas médias de importação que ultrapassam 10% em diversas categorias, com picos que ultrapassam os 35% em setores como eletrônicos, brinquedos, roupas e calçados. Quando se fala em consoles de videogame, por exemplo, as taxas podem fazer com que o preço no Brasil seja até 200% mais caro que nos Estados Unidos.

Para quem tem dúvida sobre o protecionismo brasileiro, então faço um desafio: Me diga onde encontrar produtos, principalmente eletrônicos ou veículos americanos com um preço aceitável e que qualquer cidadão que tenha um salário médio possa comprar. Desde os anos 1990 quando me tornei oficialmente consumidor de algo, trabalhando no centro de São Paulo, ia nas poucas lojas de produtos eletrônicos com algo americano nelas, e já eram com preços exorbitantes. Veículos então, é praticamente zero ver algum nas ruas de origem americana.

Se formos falar então dos Iphones objeto de desejo de muita gente o preço então é de cair morto só ao ver o valor de um.

Quando tínhamos a “Lei da informática“, o país tinha uma produção própria de computadores e afins, mesmo que com alguma defasagem tecnológica com relação aos produtos americanos, o Fernando Collor de Mello em 1990 fez algumas ações para mudar esse cenário, e fazer com que o Brasil tivesse produtos importados de melhor qualidade, porém suas ações foram infrutíferas e só ajudou a destruir nosso parque tecnológico próprio. Naquela época eu imaginava que teríamos acesso aos eletrônicos “fascinantes” na época de origem americana, mas tudo ficou no sonho, já que tínhamos empresas brasileiras que continuavam a criar produtos de segunda linha e com valor que um pobre mortal pudesse comprar.

Esse protecionismo tem raízes históricas. Desde o modelo de substituição de importações adotado no governo Vargas e aprofundado nos anos 1950 e 1960, o Brasil buscou proteger sua nascente indústria nacional das potências estrangeiras. A lógica era clara: para industrializar-se, seria preciso barrar a concorrência internacional até que as empresas brasileiras estivessem preparadas para competir. Contudo, esse modelo se perpetuou mesmo após a abertura econômica dos anos 1990 e gerou um ambiente comercial fortemente fechado.

Esse ambiente fechado se reflete na escassez de produtos americanos nas gôndolas dos supermercados, nas vitrines de roupas e nos estoques de eletrodomésticos. Ao contrário do que ocorre no México, Chile ou até em países europeus, onde marcas americanas são onipresentes no cotidiano dos consumidores, no Brasil esses produtos estão ausentes ou aparecem de forma velada — muitas vezes sob marcas intermediárias, distribuidores locais ou através de canais corporativos.

Não é que os Estados Unidos não tenham interesse em vender para o Brasil, mas o custo de entrada é proibitivo. 

Com taxas, impostos e uma burocracia alfandegária complexa, é mais fácil — e barato — para uma empresa americana vender na Ásia do que na América do Sul. Quando exportam para o Brasil, muitas vezes as empresas o fazem em nichos específicos e estratégicos, como no fornecimento de tecnologias industriais, insumos para parques tecnológicos e bens de capital.

O cidadão comum brasileiro, por sua vez, não tem acesso ao “modo de vida americano”, via produtos. Exceto pelas plataformas digitais (como redes sociais e serviços de streaming) e pelas grandes franquias de fast food, o consumo direto de produtos americanos é mínimo, criando uma percepção distorcida da balança comercial:

Os EUA compram soja, café, carne e minério; o Brasil quase não compra nada de volta, exceto o que não se vê.

Diante desse desequilíbrio, soa hipócrita a reação exacerbada de setores brasileiros — especialmente ligados ao agronegócio — quando o governo americano aplica sanções ou tarifas retaliatórias. A agricultura brasileira é, de longe, o setor mais beneficiado pelas exportações aos EUA, desfrutando de condições amplamente vantajosas. No entanto, é também o setor que mais sofre quando há uma reação de política comercial americana.

O problema é que o Brasil quer manter o status de país fechado, com barreiras tarifárias que protegem a indústria nacional (muitas vezes ineficiente), e, ao mesmo tempo, espera tratamento preferencial e irrestrito de seus parceiros comerciais. Essa equação não fecha.

Em tempos de globalização seletiva e rearranjos geopolíticos, o Brasil insiste em uma rigidez que o isola das cadeias globais de valor. Países como Vietnã, México e até mesmo Colômbia têm avançado em acordos bilaterais e regionais que facilitam o fluxo de bens e serviços, atraem investimentos e ampliam o acesso a mercados.

O Brasil, por outro lado, ainda engatinha em negociações comerciais, trava discussões internas sem fim sobre reformas tributárias e aduaneiras, e hesita em assumir compromissos internacionais que impliquem abrir seu mercado, mesmo que de forma gradual e inteligente. Essa inflexibilidade compromete o potencial de parcerias estratégicas — especialmente com países como os Estados Unidos, que compartilham valores democráticos e interesses geopolíticos com o Brasil.

O tarifaço de Trump deve ser lido como um sinal de alerta, não como um insulto. 

O mundo caminha para uma nova era de comércio internacional, baseada em acordos bilaterais, cadeias produtivas distribuídas e relações comerciais mais dinâmicas. O Brasil não pode continuar preso a um modelo de economia fechada, baseado na retórica de defesa da soberania industrial, mas que, na prática, penaliza o consumidor, encarece produtos, restringe a inovação e o acesso à tecnologia.

É hora de repensar o papel do Brasil no comércio global. Ser mais flexível com países aliados, como os Estados Unidos, significa reconhecer que uma economia aberta, estratégica e bem regulada pode trazer mais benefícios do que prejuízos. A reciprocidade comercial não é uma ameaça — é um convite à modernização.


Observação importante: De forma alguma estou tentando nesse artigo justificar as atitudes do Trump, só estou querendo propor um novo olhar para um tema que merece um pouco mais de atenção.

Francisco de Assis Garcia

Iniciei minha carreira aos 12 anos na construção civil, ajudando meu pai, onde aprendi o valor do trabalho duro e da dedicação. Essa base moldou minha trajetória multifacetada, marcada por desafios e conquistas em tecnologia, educação e gestão. Passei por papéis como aprendiz de eletricista em uma metalúrgica do ABC, técnico eletrônico e líder de equipe em empresas de tecnologia, contribuindo para projetos inovadores como o telefone público a cartão e melhorias no sistema SEDEX. Aos 24 anos, coordenei cursos de informática no SENAC SP, integrando tecnologia e administração em programas educacionais. Evoluí para posições de analista de sistemas, consultor e executivo em TI, além de construir uma sólida carreira acadêmica como professor, coordenador e diretor. Na Imbra Tratamentos Odontológicos, implantei soluções tecnológicas custo-eficientes, e, posteriormente, fundei minha própria consultoria, atuando em negócios, tecnologia, educação e finanças. Em 2022, criei a TV Humana (www.tvhumana.com.br), uma web TV dedicada a compartilhar conhecimento por meio de especialistas qualificados. Hoje, sou Diretor de Produtos na Datamines, conselheiro em empresas, mentor de profissionais e fundador do site www.empregos.net e do grupo "Negócios e Oportunidades em TI e Serviços em Geral" no LinkedIn. Aposentadoria? Não está nos meus planos. Sigo em busca de novos desafios, com foco em inovar e impactar positivamente tecnologia e educação. Não estou procurando emprego, mas se sua empresa necessita de uma visão diferente, estou sempre a disposição para conversar.

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