Desconstruindo a narrativa da opressão unilateral
Há uma tendência recorrente em certos círculos de discussão, sejam acadêmicos, ativistas ou nas redes sociais, de reduzir a história humana a uma narrativa unidimensional de opressão. O foco, muitas vezes, recai sobre os massacres de indígenas nas Américas por europeus e a escravidão de africanos, eventos inegavelmente trágicos e brutais. No entanto, essa insistência em revisitar eternamente essas feridas, como se fossem exclusivas ou definidoras da experiência humana, ignora um fato básico: a violência, a dominação e a exploração não foram invenções europeias nem exclusividade de um povo contra outro. Elas são, infelizmente, uma constante na história de todas as civilizações, em todos os continentes, perpetradas e sofridas por praticamente todos os grupos em algum momento.
Tomemos os massacres de indígenas nas Américas. Sim, a chegada dos europeus trouxe devastação: doenças, guerras e deslocamentos que dizimaram populações nativas. Mas seria ingênuo imaginar que, antes disso, as sociedades indígenas viviam em um estado de harmonia utópica e que eram povos que pregavam a paz universal e eram passivos. Povos como os astecas construíram impérios baseados em conquistas sangrentas, tributos extorsivos e sacrifícios humanos em escala impressionante.
Um dos episódios mais impressionantes da história asteca envolvendo sacrifícios humanos em massa ocorreu durante a cerimônia de dedicação do Templo Mayor, em Tenochtitlán, em 1487, sob o reinado do tlatoani (governante) Ahuizotl. Esse evento, relatado por fontes como o Códice Florentino de Bernardino de Sahagún e outros registros contemporâneos, marcou a expansão e renovação do grande templo, um dos centros religiosos mais importantes do império asteca. Segundo essas descrições, cerca de 20.000 a 80.000 pessoas foram sacrificadas ao longo de quatro dias, números que, embora possivelmente exagerados pelos cronistas espanhóis ou pelos próprios astecas para impressionar, indicam a escala monumental do ritual.
A cerimônia foi planejada para celebrar a conclusão das obras do Templo Mayor e apaziguar os deuses, especialmente Huitzilopochtli, o deus da guerra e do sol, cuja mitologia exigia sangue humano para garantir a ordem cósmica. Sacerdotes trabalhavam em turnos incessantes, extraindo os corações das vítimas com facas de obsidiana e oferecendo-os aos altares, enquanto os corpos eram descartados escadaria abaixo. A logística era impressionante: filas de prisioneiros se estendiam por quilômetros, e a cidade pulsava com tambores, cânticos e o cheiro de sangue.
As pessoas sacrificadas eram, em grande parte, prisioneiros de guerra capturados em campanhas militares conhecidas como “Guerras Floridas” (xochiyaoyotl). Essas guerras eram travadas contra cidades-estado vizinhas, muitas vezes de forma ritualística, com o objetivo explícito de obter cativos para sacrifício. As principais regiões de origem incluíam:
- Huexotzinco e Tlaxcala: Povos da região do atual estado mexicano de Puebla, frequentemente inimigos dos astecas. Tlaxcala, em particular, era um enclave independente que resistia ao domínio asteca, o que a tornava alvo constante dessas incursões.
- Mixtecas e Zapotecas: Habitantes do sul, nos atuais estados de Oaxaca e Guerrero, conquistados ou pressionados por tributos e capturas.
- Totonacas: Da costa do Golfo, no atual Veracruz, outro povo subjugado que fornecia vítimas.
- Cidades do Vale do México: Mesmo aliados ou povos tributários dos astecas, como os de Texcoco ou Chalco, podiam ter seus guerreiros capturados em conflitos locais.
Além dos prisioneiros de guerra, havia casos de tributos humanos, em que cidades vassalas entregavam pessoas como parte de suas obrigações ao império. Em menor escala, também se sacrificavam criminosos ou voluntários astecas, mas o grosso das vítimas vinha dessas populações conquistadas.
Para os astecas, o sacrifício não era apenas crueldade gratuita: era uma necessidade religiosa. Acreditavam que o sol só continuaria a nascer se fosse “alimentado” com sangue humano. O evento de 1487, com sua escala extraordinária, serviu também como demonstração de poder político, consolidando a supremacia de Ahuizotl e intimidando tanto aliados quanto inimigos. No entanto, a magnitude dessas práticas chocou até mesmo os espanhóis, que mais tarde usariam esses relatos para justificar a conquista e a demonização da cultura asteca.
Esse episódio exemplifica como os astecas, longe de serem apenas vítimas da história, foram também perpetradores de violência em nome de sua cosmovisão — um lembrete de que a brutalidade não conhece monopólio cultural ou temporal.
Os iroqueses, na América do Norte, eram temidos por suas guerras de extermínio contra tribos rivais. A diferença entre esses conflitos e a colonização europeia não está na moralidade intrínseca, mas na escala e na tecnologia — os europeus tinham armas de fogo, navios e uma organização que amplificaram o impacto de suas ações.
No contexto brasileiro, a ideia de que os indígenas viviam em um estado de pureza antes da chegada dos europeus também não resiste a um exame mais atento. Povos nativos, como os tupi, eram conhecidos por suas guerras frequentes entre aldeias rivais, marcadas por emboscadas, execuções e até práticas de canibalismo ritualístico. Entre os tupinambás, capturar inimigos em batalha era um ato de prestígio, seguido por cerimônias onde os prisioneiros eram mortos e consumidos em um complexo ritual de vingança e renovação espiritual. Tribos como os caetés, que ficaram famosas por devorar o bispo Sardinha em 1556, já praticavam tais costumes muito antes do contato com os portugueses. Esses atos não eram simples selvageria, mas parte de uma cultura guerreira sofisticada, onde a violência tinha significados sociais e cosmológicos. Ignorar essas atrocidades em nome de uma visão romantizada dos indígenas é tão desonesto quanto minimizar os horrores da colonização — ambos distorcem a realidade de um passado multifacetado.
Quanto à escravidão, a narrativa dominante frequentemente a apresenta como um pecado unicamente ocidental, como se os europeus tivessem inventado a prática. Nada mais distante da realidade. A escravidão era uma instituição global, praticada por egípcios, romanos, chineses, árabes e até pelos próprios africanos muito antes do tráfico transatlântico. No Império de Mali, no século XIV, escravos eram uma commodity essencial, vendidos em mercados prósperos. Os otomanos escravizaram milhões de europeus do leste ao longo de séculos, capturados em invasões ou comprados em rotas comerciais. Mesmo nas Américas pré-colombianas, povos como os maias e incas mantinham sistemas de trabalho forçado que, em essência, pouco diferiam da escravidão. O tráfico atlântico, embora brutal e industrializado, foi uma evolução de algo já disseminado, não uma criação original.
E os europeus, tão vilificados nessa ladainha, foram eles mesmos oprimidos em inúmeros contextos. Os romanos escravizaram celtas e germânicos em massa; os vikings saquearam e capturaram povos da Europa Ocidental; os mongóis devastaram o leste europeu com uma ferocidade que rivaliza qualquer conquista colonial. Séculos depois, as populações camponesas da própria Europa viveram sob jugos feudais que, embora não idênticos à escravidão, eram formas de servitude e miséria. Ninguém escapa ileso da história: os opressores de ontem foram, em algum momento, os oprimidos de outrora.
A insistência em focar apenas nos crimes europeus, como se o passado fosse uma tela em branco antes de 1492, não é apenas uma simplificação — é uma distorção deliberada. Ela serve a agendas políticas e emocionais, mas raramente à verdade. Claro, isso não absolve os horrores da colonização ou do tráfico de escravos. Foram capítulos sombrios, cujas cicatrizes ainda ecoam. Mas transformá-los em uma espécie de pecado original, exclusivo de um grupo, enquanto se ignora o contexto mais amplo da humanidade, é uma forma de revisionismo tão perigosa quanto negar esses eventos.
O que cansa nessa narrativa “míope” não é o reconhecimento da dor histórica, mas a seletividade conveniente e a recusa em enxergar a complexidade. Se vamos julgar o passado, que o façamos com honestidade: todos os povos, em algum momento, seguraram o chicote ou sentiram seu peso. A história não é um tribunal moral para apontar vilões eternos e vítimas perfeitas; é um espelho que reflete nossa natureza compartilhada, para o bem ou para o mal. Enquanto alguns grupos seguem entoando esse canto monocórdico, o resto de nós poderia tentar aprender algo mais útil:
A violência e a opressão não são heranças de uma cultura específica, mas falhas humanas universais. Só assim poderemos olhar para frente, em vez de ficar presos a um lamento eterno e parcial.
O verdadeiro desafio não está em julgar o passado com as lentes do presente, mas em aprender com os erros dos nossos antepassados. Esses erros — sejam os massacres astecas, as guerras indígenas ou as brutalidades coloniais — nos mostram que a violência e a dominação são falhas humanas, não exclusividades de uma raça ou cultura.
O que importa é o que fazemos com esse entendimento hoje.
Melhorar o presente para construir um futuro mais justo exige reconhecer que todos nós, independentemente de origens ou legados, somos humanos. Merecemos respeito, espaço e a chance de coexistir sem repetir os ciclos de destruição do passado.
A história não deve ser um chicote para castigar, mas um espelho para nos guiar — se soubermos usá-la assim.
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