A vitória é de quem lutou sozinho

A vitória é de quem lutou sozinho

É comum, quase automático, ver manchetes e comentários exaltando que “o Brasil ganhou” quando um cidadão brasileiro conquista algo relevante internacionalmente — seja um prêmio científico, uma medalha olímpica, um destaque artístico ou uma vaga em uma universidade renomada. O problema está na romantização dessa frase: ela mascara uma realidade muitas vezes dura e solitária enfrentada por quem chegou lá.

Essa narrativa de que o país venceu, quando na verdade quem venceu foi o indivíduo — geralmente sem apoio algum — revela mais sobre a hipocrisia coletiva do que sobre um real sentimento de pertencimento ou orgulho nacional. Quantos brasileiros que hoje são exaltados como “orgulho nacional” ouviram frases como “isso não vai te levar a lugar nenhum” de seus próprios parentes? Quantos precisaram vender doces, rifas ou recorrer a vaquinhas online para financiar seus sonhos enquanto o Estado se mantinha ausente?

Medalha de ouro para o Brasil?

Rebeca Andrade, ginasta brasileira, tornou-se símbolo não apenas de talento e perseverança, mas também de resistência em meio ao abandono institucional. Desde Tóquio 2020, quando conquistou prata no individual geral e ouro no salto — feitos históricos para a ginástica artística feminina do Brasil —, até seu desempenho extraordinário em Paris 2024, Rebeca expôs uma dura verdade:

O país costuma se orgulhar da vitória, mas ignora a jornada.

Antes da consagração mundial, Rebeca enfrentou uma trajetória marcada por falta de apoio, lesões graves e dificuldades financeiras. Nascida em Guarulhos, em uma família humilde, foi criada por sua mãe — empregada doméstica — que, com muito esforço, fez o impossível para apoiar o talento da filha. Mesmo assim, por muito tempo faltaram recursos para transporte, alimentação e até material esportivo. O Estado? Quase sempre ausente. A estrutura oferecida à ginástica artística no Brasil é precária, e o suporte real veio apenas da dedicação de técnicos, clubes e, principalmente, da própria força de vontade de Rebeca.

Ela passou por três cirurgias no joelho antes dos 22 anos. Treinou com dor, se reergueu sozinha, enfrentou o cansaço, a solidão e o descrédito. E venceu.

Quando as medalhas vieram, vieram também as manchetes dizendo que “o Brasil ganhou”. Políticos e marcas que nunca estiveram presentes passaram a disputar espaço ao lado de Rebeca, como se o sucesso dela tivesse sido um projeto coletivo. Mas não foi. A verdade é simples e incômoda:

Rebeca venceu apesar do Brasil. 

Com apoio de poucos — sua mãe, seus técnicos, sua equipe. O Brasil institucional falhou com ela, como falha com milhares de outros atletas invisíveis, que treinam em silêncio, sem visibilidade, sem estrutura, sem dignidade.

E mesmo com tudo isso, em Paris 2024, Rebeca voltou a brilhar:

  • Ouro no solo, vencendo Simone Biles por 0,033 pontos.
  • Prata no individual geral, repetindo o feito de Tóquio.
  • Prata no salto, consolidando sua força na especialidade.
  • Bronze por equipes, a primeira medalha do Brasil nessa categoria.

Com esse desempenho, Rebeca Andrade tornou-se a maior medalhista olímpica da história do Brasil, ultrapassando lendas como Torben Grael e Robert Scheidt.

Durante a cerimônia no solo, Biles e Jordan Chiles, suas adversárias norte-americanas, fizeram um gesto simbólico de reverência diante de Rebeca. Um momento que ficou marcado não apenas pelo ouro, mas pela admiração global por sua trajetória.

Mas que não se repita o erro: confundir orgulho com apropriação. Sentir orgulho de Rebeca é legítimo. Tentar tomar para si o mérito de sua vitória, não.

Se o Brasil quiser realmente “ganhar”, precisa apoiar antes da glória, investir antes do pódio, respeitar antes da medalha. Porque Rebeca venceu sozinha, mas nenhum país digno de orgulho deveria permitir que sua maior atleta também fosse sua maior denúncia.

O fenômeno musical

Não sou fã dela, e nem de sua música, porém tenho sempre de admirar e respeitar pessoas determinadas e que alcançam o sucesso. Anitta, cujo nome verdadeiro é Larissa de Macedo Machado, cresceu em Honório Gurgel, bairro periférico do Rio de Janeiro. Começou a cantar aos sete anos na igreja e, ainda adolescente, passou a produzir seus próprios vídeos e músicas com poucos recursos, sem incentivo do governo, sem acesso a fomento cultural, sem apoio das grandes gravadoras brasileiras no início.

Sua ascensão meteórica veio por méritos próprios.

Soube usar as redes sociais com inteligência, investiu no seu branding, aprendeu inglês e espanhol sozinha, e planejou meticulosamente sua entrada no mercado internacional. Criou uma estratégia artística que a transformou em empresária, produtora e ícone global.

Mesmo com críticas e preconceitos por sua origem e estilo musical — o funk, marginalizado no Brasil por décadas —, Anitta levou o ritmo das favelas brasileiras aos palcos do mundo. Em 2022, tornou-se a primeira artista solo brasileira a liderar o ranking global do Spotify, com a música Envolver. Em 2023, foi indicada ao Grammy, um feito raríssimo para brasileiros da música popular.

A reação? Manchetes com “o Brasil no topo do mundo”, “o Brasil chegou ao Grammy”, “o Brasil domina as paradas globais”. Mas onde estava esse “Brasil” quando ela se apresentava de graça em eventos comunitários, ou quando tinha que gravar clipes com orçamento mínimo, com amigos e celulares?

O funk, gênero que Anitta ajudou a internacionalizar, é até hoje alvo de preconceito, criminalização e censura em várias esferas da sociedade brasileira — da mídia ao Judiciário.

Quando artistas do funk se destacam globalmente, o país corre para vestir a camisa da vitória, mesmo tendo contribuído pouco ou nada com ela.

Anitta venceu com sua equipe, com sua inteligência estratégica e com uma força de trabalho que nasceu da necessidade. Ela não venceu porque o Brasil a impulsionou. Venceu apesar do Brasil oficial, que só apareceu no camarote depois que o palco já estava montado.

Assim como Rebeca na ginástica,

Anitta é a prova de que o mérito individual, no Brasil, quase sempre acontece à revelia do sistema.

Por isso, é preciso parar de dizer que “o Brasil venceu”, e começar a refletir sobre por que tantos brasileiros só conseguem vencer quando o Brasil não atrapalha.

Do anonimato à vitrine do orgulho nacional

Débora cresceu na periferia de São Paulo, estudando em escola pública da infância à adolescência. Filha de uma diarista e sem a presença do pai, viveu uma realidade conhecida por milhões: transporte público precário, professores sobrecarregados, salas lotadas, material didático defasado e nenhuma política pública que oferecesse a ela uma ponte real para universidades estrangeiras.

Ainda assim, ela sonhou o improvável. Com força de vontade e muito estudo autodidata, participou de olimpíadas do conhecimento, traduziu conteúdos acadêmicos com aplicativos gratuitos e vasculhou a internet em busca de caminhos. Aprendeu inglês por conta própria, escreveu suas cartas de motivação, encarou processos seletivos rigorosos e, aos 17 anos, foi aceita em Harvard com bolsa integral.

Quando a notícia explodiu na mídia, a transformação foi imediata. “Brasileira conquista vaga em Harvard com 100% de bolsa”, diziam as manchetes. De uma hora para outra, Débora virou símbolo nacional. Reportagens, homenagens, políticos querendo aparecer e compartilhar sua foto como se fossem parte da conquista. E então surgiu a narrativa: “o Brasil chegou a Harvard”.

Mas a pergunta precisa ser feita: qual Brasil? Certamente não foi o que a ensinou a falar inglês, nem o que forneceu mentoria acadêmica, muito menos o que financiou sua preparação. O Brasil que agora aparece para celebrar é o mesmo que ignorou sua existência enquanto ela construía silenciosamente um caminho improvável, quase impossível.

Esse Brasil — institucional, simbólico, de aparências — quer aparecer na foto por conveniência. Porque figuras como Débora geram prestígio internacional, aquecem o discurso de meritocracia, suavizam as estatísticas da exclusão, e produzem manchetes que encobrem os cortes em educação, ciência e tecnologia. Ela é a exceção que é usada para negar a regra.

Estar na foto com Débora é, para muitos, uma forma de cooptar a vitória individual para alimentar uma ilusão coletiva de avanço, mesmo quando a estrutura que deveria formar outros milhares de jovens como ela continua falhando miseravelmente.

Débora não foi levada a Harvard pelo Brasil. Ela escapou do Brasil que a negligenciou. E se transformou, sozinha, no tipo de história que o país gosta de contar — mas raramente ajuda a escrever.

Celebrar é válido. Apropriar-se, não.

O país se apropria do sucesso, mas não participa da jornada. O que falta é responsabilidade antes da glória. Apoio, estrutura, visibilidade. Isso sim transformaria a mérito individual em conquista coletiva de verdade.

A frase “o Brasil ganhou” é, em muitos casos, uma forma de se apropriar indevidamente do esforço alheio. Ela transforma a conquista de um cidadão — marcada por esforço individual, renúncia, dor e, muitas vezes, resistência contra o próprio sistema — em uma suposta glória coletiva. Mas onde estava essa coletividade quando aquela pessoa precisou de suporte, estrutura, investimento ou mesmo um simples incentivo?

É importante refletir: apoiar o talento só no pódio não é apoio, é oportunismo. O Brasil que aparece para bater palma é, muitas vezes, o mesmo Brasil que ignorou, desprezou ou até sabotou os passos anteriores daquela trajetória. O mesmo país que não oferece condições mínimas de desenvolvimento científico, esportivo ou artístico. O mesmo sistema que precariza o ensino, negligencia políticas públicas de incentivo e falha em criar ambientes de igualdade de oportunidades.

Claro, é possível sentir orgulho por um compatriota. Mas há uma diferença imensa entre reconhecer a origem de alguém e tentar transformar isso em uma medalha nacional. Sentir orgulho é dizer “ele é brasileiro”; se apropriar é dizer “nós vencemos”, quando, na realidade, nós, enquanto nação, muitas vezes não fizemos absolutamente nada para que isso acontecesse.

Chegou a hora de parar de romantizar a superação de outros como se fosse virtude do país, quando na verdade é denúncia de sua negligência. Em vez de dizer “o Brasil venceu”, talvez devêssemos dizer “fulano venceu, apesar do Brasil”. E, se quisermos realmente mudar essa realidade, que possamos fazer parte da jornada antes da vitória — apoiando, investindo, reconhecendo e não atrapalhando.

Como o Brasil realmente poderia ter mérito em alguma conquista individual

Imagine um jovem estudante de uma cidade do interior, filho de agricultores, que se torna referência mundial em tecnologia ambiental ao criar um sistema inovador de purificação de água utilizado em comunidades carentes pelo mundo.

Mas, diferente das histórias em que o talento individual sobrevive ao abandono, aqui a trajetória dele contou com o apoio contínuo e concreto do Estado brasileiro.

Ainda no ensino fundamental, ele estudou em uma escola pública com infraestrutura de qualidade, com laboratórios equipados, biblioteca ativa e professores valorizados. Teve professores, que além do tradicional foram mentores, identificaram seu talento e o apoiaram sempre que precisou. Teve a orientação para a vida desses professores que o acompanharam. Participou de olimpíadas científicas organizadas por programas públicos, teve acesso a mentoria acadêmica e intercâmbio promovido por uma política nacional de estímulo ao talento jovem.

No ensino médio, recebeu bolsa de iniciação científica pelo CNPq, foi apoiado por uma universidade federal com centros de pesquisa bem financiados e teve seu projeto incubado em uma rede pública de inovação. Ao concorrer para estudar fora, levou consigo uma carta de recomendação do Ministério da Educação — porque seu projeto fazia parte de um programa nacional de jovens talentos científicos. Durante o curso no exterior, manteve contato com um consulado brasileiro ativo e com financiamento público para estudantes internacionais.

Ao ganhar o prêmio internacional, ele agradece à sua família, claro, mas também à escola, à universidade, aos programas federais, aos técnicos, professores e cientistas que o formaram e o acompanharam. Aí sim, o Brasil poderia dizer com propriedade: “nós vencemos”.

Essa seria uma vitória coletiva legítima. Porque o país participou da construção — não apenas celebrou o resultado final. Não basta bater palmas no pódio: é preciso estar presente no primeiro dia de aula, na primeira dúvida, no primeiro fracasso. Só assim um feito individual pode, com justiça, ser chamado de conquista nacional.

Quando o Brasil realmente vencer seremos os primeiros a reconhecer isso

Rebeca brilhou nos Jogos Olímpicos apesar de ter treinado em silêncio, com dores, em estruturas precárias.

Anitta levou o funk ao mundo apesar de vir de um gênero criminalizado e uma origem social marginalizada.

Débora entrou em Harvard apesar de ter estudado sozinha, com internet instável, sem apoio de políticas públicas.

Essas histórias são lindas, emocionantes, potentes — mas não são, no fundo, histórias do Brasil vencendo. São histórias de brasileiros e brasileiras que venceram apesar do Brasil.

O país só terá o direito de se apropriar dessas vitórias quando tiver estado presente antes do aplauso, quando tiver oferecido as condições para que esses talentos florescessem com dignidade, estrutura e apoio real.

A verdadeira vitória nacional não acontece no pódio, no palco ou na manchete. Ela começa na base: na escola pública que funciona, na universidade que pesquisa, no edital que apoia, no técnico que recebe salário digno, no laboratório que não fecha as portas, na creche com alimentação, no transporte gratuito para o atleta treinar, mas reconhecido como expressão cultural.

Quando esse dia chegar, não será preciso correr para a foto. Porque todo o país já terá feito parte do retrato desde o começo.

E então, sim, poderemos dizer com orgulho: o Brasil venceu.

Mérito é individual. E só se torna coletivo quando o coletivo participa de verdade.

Francisco de Assis Garcia

Iniciei minha carreira aos 12 anos na construção civil, ajudando meu pai, onde aprendi o valor do trabalho duro e da dedicação. Essa base moldou minha trajetória multifacetada, marcada por desafios e conquistas em tecnologia, educação e gestão. Passei por papéis como aprendiz de eletricista em uma metalúrgica do ABC, técnico eletrônico e líder de equipe em empresas de tecnologia, contribuindo para projetos inovadores como o telefone público a cartão e melhorias no sistema SEDEX. Aos 24 anos, coordenei cursos de informática no SENAC SP, integrando tecnologia e administração em programas educacionais. Evoluí para posições de analista de sistemas, consultor e executivo em TI, além de construir uma sólida carreira acadêmica como professor, coordenador e diretor. Na Imbra Tratamentos Odontológicos, implantei soluções tecnológicas custo-eficientes, e, posteriormente, fundei minha própria consultoria, atuando em negócios, tecnologia, educação e finanças. Em 2022, criei a TV Humana (www.tvhumana.com.br), uma web TV dedicada a compartilhar conhecimento por meio de especialistas qualificados. Hoje, sou Diretor de Produtos na Datamines, conselheiro em empresas, mentor de profissionais e fundador do site www.empregos.net e do grupo "Negócios e Oportunidades em TI e Serviços em Geral" no LinkedIn. Aposentadoria? Não está nos meus planos. Sigo em busca de novos desafios, com foco em inovar e impactar positivamente tecnologia e educação. Não estou procurando emprego, mas se sua empresa necessita de uma visão diferente, estou sempre a disposição para conversar.

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